São 18:35h, começo a preparar as coisas para ir embora, aos
poucos se vê os outros que me rodeiam a fazer o mesmo. Cada um tem o seu
pequeno ritual de final de dia, uns espreguiçam-se, outros atiram com as
canetas para cima da secretária em tom de protesto, outros como eu tentam sair
de fininho, sem serem vistos. O caminho desde a porta da empresa até ao metro
pode ser comparado com uma mini maratona, um grupo de pessoas que caminham com
os olhos no chão a tentarem chegar primeiro a entrada do metro, a disputa
silenciosa para ver quem passa primeiro as cancelas do caminho para casa.
Eu sou um observador, sempre fui. Fascina-me a forma como as
pessoas tentam ser perfeitas quando andam de metro. Algumas caminham entre
carruagens à procura da carruagem perfeita, que tenha pouca gente, com lugares
à janela. Outras tentam mostrar que são muito intelectuais com os seus livros
de auto ajuda. Outros gritam com o olhar, pedindo atenção como um gato abandonado. Eu sou do grupo que se encosta ao fundo da carruagem, no canto
mais escondido longe do resto do mundo, a ouvir música e a observar.
Vê-se de tudo um pouco debaixo de terra, acho que a falta de
luz natural trás à tona alguma excentricidade das pessoas, é como ver um filme
de Sylvain Chomet.
O ar pesado que circula na carruagem, os olhares secos que se trocam, os com licenças, os obrigados, os 'vai sair?', faz tudo parte deste pequeno mundo.
Não vale a pena sorrir, ninguém gosta de ver alguém sorrir debaixo de terra. Faz confusão às pessoas, como é que pode alguém sorrir quando está enfiado num tubo de metal rodeado de pessoas a cheirar a suor, debaixo do resto do mundo, entre a realidade da vida que passa por cima, e da suposta que circula por baixo de nós.
Somos pequenas baratas tontas que anseiam por sair daquele buraco, que anseiam ver a luz do sol, respirar o ar desgastado arrastado pelo vento.
São 19:10h, cheguei ao vazio da minha solidão, já posso sorrir.
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