quarta-feira, 19 de novembro de 2014

4:43 am

Como é que nunca reparei naquela mancha no tecto?

5:02 am

Meu deus ainda posso vir a ser Presidente da República se continuar a pensar assim.

5:30 am

Talvez se beber leite consiga dormir, ou um chá.

6:05 am

Ainda dá para dormir uma meia hora.

6:15 am

Se calhar o melhor é levantar-me.

8:44 am

MERDA ADORMECI!
Alguma coisa se põe a sangrar dentro de mim, olho as coisas e não as vejo. A alma sangra e não encontro remédio, nem consolo.
O melhor é não pensar, não registar, não me mexer. Deixar que o tempo apague em mim a sensação de estar vivo.

- Al berto

domingo, 16 de novembro de 2014

Percurso

São 18:35h, começo a preparar as coisas para ir embora, aos poucos se vê os outros que me rodeiam a fazer o mesmo. Cada um tem o seu pequeno ritual de final de dia, uns espreguiçam-se, outros atiram com as canetas para cima da secretária em tom de protesto, outros como eu tentam sair de fininho, sem serem vistos. O caminho desde a porta da empresa até ao metro pode ser comparado com uma mini maratona, um grupo de pessoas que caminham com os olhos no chão a tentarem chegar primeiro a entrada do metro, a disputa silenciosa para ver quem passa primeiro as cancelas do caminho para casa.
Eu sou um observador, sempre fui. Fascina-me a forma como as pessoas tentam ser perfeitas quando andam de metro. Algumas caminham entre carruagens à procura da carruagem perfeita, que tenha pouca gente, com lugares à janela. Outras tentam mostrar que são muito intelectuais com os seus livros de auto ajuda. Outros gritam com o olhar, pedindo atenção como um gato abandonado. Eu sou do grupo que se encosta ao fundo da carruagem, no canto mais escondido longe do resto do mundo, a ouvir música e a observar.

Vê-se de tudo um pouco debaixo de terra, acho que a falta de luz natural trás à tona alguma excentricidade das pessoas, é como ver um filme de Sylvain Chomet.
O ar pesado que circula na carruagem, os olhares secos que se trocam, os com licenças, os obrigados, os 'vai sair?', faz tudo parte deste pequeno mundo.
Não vale a pena sorrir, ninguém gosta de ver alguém sorrir debaixo de terra. Faz confusão às pessoas, como é que pode alguém sorrir quando está enfiado num tubo de metal rodeado de pessoas a cheirar a suor, debaixo do resto do mundo, entre a realidade da vida que passa por cima, e da suposta que circula por baixo de nós. 
Somos pequenas baratas tontas que anseiam por sair daquele buraco, que anseiam ver a luz do sol, respirar o ar desgastado arrastado pelo vento.
São 19:10h, cheguei ao vazio da minha solidão, já posso sorrir.

Ser

Nunca serei nada, senão alguém que se segura neste mundo aos outros.
Que vive se o outro viver, que sente o que lhe dizem para sentir.
Que chora, que ri, que sofre, que sê, se assim quiserem que seja.
Nunca serei eu, serei sombras de outros, aquela sombra que mal se vê, que não se sente, que não se toca.
Serei um fragmento da minha própria existência.
Serei o que me deixarem ser, se me deixarem ser alguma coisa.

Recomeça

Levanta-te.
Levanta-te já disse.
Já não és nenhuma criança, levanta-te.
Eu sei que dói, mas levanta-te.
Não te deixes morrer por causa disso, vá força.
Ergue-te, levanta os olhos desse chão.
Sacode essa dor que se colou na tua pele, deixa-a cair.
Pisa-a. Deixa-a esmorecer sozinha nesse vazio.
Corre.
Corre já disse.
És um homem, corre.
Não deixes de te levantar desse chão que te magoa, desse frio que te corrói por dentro.
Pára.
Esquece.
Recomeça.